Altair Gelatti - 1931/2020
Desenhista, roteirista e editor.
Desenhista caxiense, ganhou projeção nacional nos anos 60 com a criação dos personagens "Homem Força" e "Detetive Nelson" para a sua revista "Albatroz".
O INÍCIO
Altair Laurindo Gelatti nasceu no dia primeiro de outubro de 1931 em Flores da Cunha (RS). Desde muito cedo, antes mesmo de aprender a ler, já mostrava-se interessado pelas histórias em quadrinhos, olhando os desenhos atentamente e rabiscando sempre que possível. Dentre as cidades que morou na infância, foi como interno em um colégio de Getúlio Vargas que sua veia artística começa a aflorar. Colecionava as revistas que seus colegas traziam.
Além das HQ's, sempre foi um ávido leitor de livros e espectador de filmes. Gostava de tudo, mas, em especial, histórias de ficção científica, um tema muito explorado anos 50. Pode-se dizer com certeza, que o hábito da leitura, que o acompanhou a vida inteira, foi diretamente incentivada pela leitura das HQ's.
OS ROBÔS
Aos 12 ou 13 anos de idade, entre ilustrações de trabalhos e as vezes, desenhando durante as aulas, o que incomodava alguns professores, teve a ideia de criar o roteiro de uma história intitulada "Os Robôs". Sim, roteiro. Não chegou a desenhá-la porque naquela época os quadrinhos eram considerados pelos mais conservadores, uma má influência para a educação e bons costumes. Teve receio da retaliação dos padres do seu colégio. Só foi desenhar esta história muitos anos mais tarde, para sua revista Albatroz nº 45.
Com aproximadamente 20 anos, recém casado com sua mulher Zulma Pezzi Gelatti, muda-se definitivamente para Caxias do Sul para estudar Contabilidade. Gelatti nunca pensou, em nenhum momento, viver dos quadrinhos, sempre considerou um hobby. Altair sempre teve seu traço voltado ao desenho realista, não simpatizava com desenhos infantis ou caricaturas, talvez influenciado por seu gosto pelos grandes clássicos da literatura.
EBAL
Em 1954, com aproximadamente 23 anos, resolve quadrinizar um livro que o impressionou muito: "A Filha do Inca" do escritor brasileiro Menotti Del Picchia. Provavelmente leu a edição da Coleção Saraiva lançada em 1949.
Muito influenciado pelas revistas Edição Maravilhosa (Ebal) que quadrinizava os grandes clássicos e Grande Hotel (Vecchi) por seus desenhos realistas e sombreados, Gelatti inicia um trabalho que perduraria pelos próximos 5 anos.
Desenhou durante as horas vagas, pois levava muito a sério seu trabalho de "Guarda Livros".
Antes mesmo terminar a sua história, Gelatti resolve enviar uma amostra de seu trabalho para a Editora Brasil-América. Fez uma cópia litografada da página 23 e enviou. O clichê custou uma fortuna, mas ele sabia que a Ebal não devolvia originais recebidos para avaliação e não queria perder sequer uma página do seu trabalho. Sabia também que a Ebal só se comunicava via correspondência. Ao receber o desenho, a editora, contrariando as próprias regras, liga para Gelatti solicitando que enviasse a história completa. Todas as páginas.
Com medo de perder o trabalho de muitos anos, Altair recebe da editora a promessa de que todos os seus originais seriam devolvidos. A Ebal demonstrou grande interesse em publicá-la em sua revista Edição Maravilhosa. Tanto que compraram os direitos de publicação da história. Mas haviam alguns empecilhos a resolver. A história, apesar de ter 27 pranchas prontas, ainda não havia sido terminada. Além disso, haviam alguns problemas técnicos: Gelatti havia utilizado em sua quadrinização, quadros irregulares e de formas geométricas diversas, que não correspondiam ao padrão da revista, que era de quadros padronizados e retangulares. Também sua técnica de desenho não envolvia nanquim, todos os desenhos haviam sido feitos à crayon. Provavelmente influenciando pela técnica de desenhos da revista Grande Hotel. Também haviam algumas cenas violentas que precisariam ser omitidas ou redesenhadas, como as de flechas que, vez por outra, atravessavam os personagens.
Altair teria que redesenhar a história que havia levado 5 anos, em apenas alguns meses. Sem referências de profissionais do meio, sem conhecer nada sobre o mercado e nem sequer saber o que era "nankim" e diante da tarefa gigantesca de fazer tudo de novo, resolve desistir deste trabalho. Admite também ter tido um pouco de desconfiança diante da facilidade que teve diante de sua primeira correspondência para uma editora.
Somente anos depois é que foi entender a grandeza desta oportunidade, que era o sonho de muitos desenhistas do Brasil inteiro.
Gelatti sempre foi um autodidata, não por opção, mas por desconhecer completamente o processo de criação de HQ's, pois não haviam outros quadrinistas e muito menos cursos, em que ele pudesse aprimorar e aprender técnicas profissionais.
Em abril de 1960 Gelatti vê "sua" história "A Filha do Inca" ser publicada na Edição Maravilhosa nº 184. Havia sido feita à nankim por outro desenhista. Talvez com receio de ver os desenhos de Gelatti publicados em outra revista, a editora resolve deixar claro, através de uma chamada na primeira página, que todos os direitos de publicação da quadrinização desta história eram da Editora Brasil-América.
A partir daí resolve utilizar nankim em suas histórias. Em 15 de junho de 1959 inicia sua primeira história desenhada a nankim e tinta têmpera em quadros padronizados e retangulares.
Argemiro Nora
Seu amigo e maior incentivador, Argemiro Nora, distribuidor da Ebal e proprietário de uma banca de revistas ao lado do cinema Imperial de Caxias do Sul, impressionado com a qualidade dos desenhos do Homem Força, sugere a ele que leve seu trabalho para a Rio Gráfica Editora no Rio de Janeiro. Gelatti tinha parentes no Rio e passa a fazer viagens regulares onde conciliava suas visitas com incursões às editoras.
Numa destas viagens, volta ao Rio, vai até a RGE, onde havia deixado um material em sua viagem anterior. Chegando lá, percebe que seus desenhos estavam enrolados no mesmo lugar da recepção onde os haviam colocados da primeira vez. A recepcionista devolve seus desenhos dizendo não haver interesse. Desta vez, Gelatti perde a calma, volta nervoso para casa e, esbravejando atira seus desenhos sobre a mesa da sala. Um amigo, que estava na casa neste momento resolve lhe ajudar e diz: "- Existem centenas de desenhistas que deixam seus trabalhos diariamente na porta das editoras. Os editores nem sempre tem tempo de olhar todos. Vou lhe dar uma dica, espere em frente à Rio Gráfica Editora e aguarde chegar um homem baixinho vestindo chapéu e sobretudo escuros. Sem falar nada ou pedir permissão, abra todos os seus desenhos sobre a mesa da recepção de modo que ele possa vê-los. Só assim você conseguirá a atenção deles".
No outro dia, ao avistar o tal homem, Gelatti faz exatamente o combinado. Era um dos editores de quadrinhos. Ao ser abruptamente interpelado, inicia naquele momento atos de repulsa e indignação, porém para, perplexo, e muda de atitude imediatamente após ver os desenhos: "- Estes desenhos são seus? São muito bons!" Gelatti lembra ouvir o homem falar ao segurança: "- levem este cidadão para conhecer a gráfica enquanto mostro os seus desenhos para a direção".
Mais uma vez Gelatti se depara com impedimentos. A RGE se interessa por seu trabalho mas diz não poder publicar histórias de um super-herói pois tinha contratos com os editores norte-americanos que os impedia.
Mais uma vez Gelatti volta para Caxias sem conseguir nada.
Conversando com amigos, resolve ir uma vez mais até a Ebal e mostrar o que andava desenhando. A Ebal se interessa em trabalhar com ele, mas pede que faça desenhos infantis para concorrer com os personagens da Disney. Como não desenhava caricaturas ele vai embora e recebe a indicação de visitar a Editora La Selva.
Mais mais uma vez ele deixa os desenhos do Homem força em uma editora para retornar, como de costume, em sua próxima viagem. Em seu retorno à La Selva, foi informado que o homem que avaliaria seus desenhos havia se suicidado.
... (!)
Alguém sugere que ele vá conversar Jayme Cortez para avaliar seu trabalho.
Altair lembra que Cortez foi muitíssimo gentil e cordial em sua recepção e me relata que recebeu dele um conselho que levaria para o resto de sua vida: "-somos artistas, não somos enciclopédias ambulantes de imagens. Não crie uma orelha ou uma pedra porque elas já existem. Use sempre modelos em suas histórias". Citou o próprio Alex Raymond o qual Gelatti era grande fã e lembrou das grandes cidades futuristas que ele montava com vidros de perfumes. Gelatti escutou com atenção este grande mestre, tanto que, ao criar o Detetive Nelson, utilizou seu filho Wilson como modelo.
Cortez sugeriu que Gelatti desenhasse histórias sem personagens autorais. Seu super-herói não seria aceito por nenhuma editora.
Histórias de Guerra
O que estava vendendo bastante e "salvava o mês" dos desenhistas nacionais eram as histórias que Gelatti mais detestava: histórias de guerra. Gelatti sempre foi um homem íntegro, justo, de caráter irretocável. Aprendeu a diferença entre o bem e o mal lendo quadrinhos. Gelatti precisou de 3 anos entre idas e vindas para ver suas histórias publicadas em uma editora.
A partir de sua primeira publicação, passou a ver seu trabalho publicado em revistas como "Combate", "Massacre", "Os Grandes Combates" e Submarino" em editoras como Outubro, Taika e Dado. As coisas iam bem e as publicações só aumentavam.
Em uma de suas viagens, deixou sua mulher Zulma aguardando na recepção e entrou para conversar com o diretor de arte de uma destas editoras. Deixou seus desenhos sobre a mesa. Neles, histórias de batalhas aéreas onde era possível perceber até os parafusos na fuselagem dos aviões, ilustrações ricamente detalhadas por Gelatti, que seguiu à risca os conselhos do mestre Cortez. Comprava miniaturas de montar, réplicas de aviões de guerra da Revell, para criar suas novas histórias.
O fim das publicações
Enquanto aguardava, Zulma presenciou um fato que mudaria completamente os rumos da carreira de quadrinista de Altair Gelatti:
Alguns desenhistas habituais da editora entram na sala. Percebendo os desenhos sobre a mesa, todos comentam abatidos e chateados: "- o gaúcho está ai! Este mês, ganharemos menos!" dizem seus "colegas" enquanto observam estupefatos aos muitos detalhes dos desenhos dos aviões.
Gelatti, a esta altura, já sabia da preferência que os editores tinham por suas histórias, que eram sempre escolhidas para abrir as revistas. Porém, não havia se dado conta que, segundo suas próprias palavras, seu "hobbie" estava tirando o pão da mesa de seus colegas. Ele, por outro lado, garantia seu sustento como contador.
A partir deste episódio, Altair nunca mais voltou a visitar as editoras.